segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Abertura do Sarau da Coletivoz

É com enorme prazer que a Coetivoz se abre para a poesia periférica. Como o próprio nome já indica, a intenção é dar voz à coletividade. A partir do dia 10 de Setembro, Esperamos uma contingência religiosa, toda Quarta-feira às 19hs, pois a poesia é o sagrado que nos guia. Assim, deixamos aqui o Manifesto de abertura:
à luta, à voz!

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Manifesto da Voz Coletiva

Sarau da Coletivoz

Manifesto da voz coletiva

A palavra “Manifesto” aqui, não sei se pelo respeito, ou se pelo diálogo possível com os assuntos de mesmo gênero, tão transformadores deste e de outros séculos, representa, antes de mais nada, uma defesa. A defesa de um patrimônio. Em primeiro lugar, defesa da língua, nosso português-brasileiro, como patrimônio cultural; como patrimônio identitário; como patrimônio do povo brasileiro. E depois, e não menos importante, a defesa do direito à voz. A voz como um conjunto de valores, que se estreitam no poder da fala. A voz como agente transformador da sociedade contemporânea; como único meio capaz de dialogar com qualquer discurso hegemônico, como bem nos mostra, o nosso grande sábio e iluminado guru de todos os tempos, Milton Santos brasileiro. E aqui, não poderíamos deixar de dizer que esta voz emerge de um único lugar: da grande periferia das cidades brasileiras. A produção cultural multifacetada, pluralizada, híbrida, diversa, marginal, que está, cada vez mais, a olhar orgulhosa nos olhos de qualquer outra produção que se diga superior.
Tão versátil é o manifesto, que sua defesa é desenfreada: seja pela beleza ou pela desigualdade; pela riqueza ou pela humanidade; pela pobreza ou pela dignidade. Aqui, nos detemos ao perceber o equívoco da relação entre esses elementos, que deveriam ter apenas a função de definir parâmetros: altos e baixos; grande e pequeno, etc. Porém, aprendendo a ressignificar todos eles, sob o conglomerado de vozes de que se faz/refaz a periferia, desnudamos o sentido óbvio das relações. O que nos permite pensar em uma escala diferente de valores, desvirtuando o compromisso, e possibilitando o fato de dada riqueza estar sob o extremo oposto de humanidade.
É assim mesmo, de modo dúbio, imbricado, conturbado, entrelaçado, transculturado é que se estabelecem as relações desse coletivo periférico; dessa voz coletiva. E talvez, por isso mesmo, é que nos concentramos, com o grafite, com o rap, com a poesia, com a literatura periférica/marginal, na função de desestruturar, desestabelecer, desprivatizar, destituir, desarticular, para, assim, conseguirmos desbravar, descobrir, desodiar, despirocar e desvairar num gozar coletivo. Há uma urgência absurda de que esse gozo aconteça. De que surjam, mais e mais, o que tomo a liberdade de chamar de “instituições de vozes marginais”: duelo de Rappers, eventos culturais e saraus sobre/nas periferias, tal qual é a memorável Cooperifa, porta-voz de longa data, entre outros. O sarau da Coletivoz é mais um grito, que deseja união desses movimentos contra o silêncio da exclusão.
A Coletivoz, que no híbrido da voz do coletivo, também revela a pretensão dos coletivos, dos grupos e guetos, que têm necessidade de escancarar toda a sua complex(c)idade, e toda denúncia contra o descaso do poder público, de um sistema maior, em relação à margem.

Assim, na Coletivoz o ato maior é o poder da palavra, aquela que impera no momento final. Nua e crua, a palavra é o verbo e o prato de comida; é o beijo doce e o choro de desespero; é o repente macio e o Rap de repente; ora a cor, ora o som estridente; de dia a mão, à noite o colo. Pois, é a palavra, com toda sua incapacidade de conclusão; com toda sua incompletude, é que coloca a todos nós na condição mais digna do ser humano: como seres inacabados que somos.


À luta, à voz.

Rogério Coelho
Comente o Manifesto! Ok?! Obrigado.